Sacode as Nuvens
Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos, Sacode as aves que te levam o olhar. Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras. .... Sophia de Mello Breyner
sábado, 14 de março de 2026
quinta-feira, 12 de março de 2026
Não digas nada
Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada.
Deixa esquecer.
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vão toda essa viagem
Até onde quis
Sei que me agrada
Mas alí fui feliz
Não digas nada
Deixa esquecer .
Fernando Pessoa
domingo, 24 de março de 2024
25 de Abril de 1974
Para os meus netos Vicente e Henrique
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
quarta-feira, 20 de março de 2024
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro
nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um
ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes
verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um
aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
in Os Amantes sem Dinheiro
terça-feira, 27 de fevereiro de 2024
Grinalda para o próximo terramoto de Lisboa
Ao Urbano Tavares Rodrigues
s
1 -
Vai deslizando a cidade
(cai a tarde)
entre duas noites gémeas,
tão eternas! Tão efémeras!
- como um corpo fatigado
(cai a tarde),
um corpo por entre dois
negros lençóis ...
Noite do céu, aconchega
bem o rosto da cidade!
Noite do céu, que tristeza
nos invade?
Noite do céu, nem na dobra
de luar do teu lençol
(ah! Que saudades do Sol!)
tamanha angústia soçobra.
Mas, insones, esquecemos
a noite que espezinhamos,
remadores olhando os ramos
das altas árvores da margem,
só atentos à paisagem,
sem ver o lodo nos remos
nem os pegos
- olhos negros
das águas que espedaçamos!
No desprezo a que o votamos,
range o lençol esquecido.
Ai de nós, que mal cuidamos
do perigo!
Noite funda das entranhas
intranquilas!
Noite funda das entranhas,
que venenos tu destilas!
E na tetas das colinas,
para nós, que leite ordenhas?
Eis que num primeiro andar,
quase a boiar sobre o Tejo,
a um papagaio empalhado
e a um milhafre pintado
num azulejo
lhes tremem, súbito as asas;
e antes que tremam as casas
buscam, aflitos, o ar.
Vem, ó Anjo tutelar
da luminosa, leviana,
mística, fútil, profana
cidade dos terramotos,
- vem, ó Anjo Jugular,
o terror dos próprios mortos!
2 -
Salta o esgoto,
cai o muro,
morre o porco
no monturo;
e no porto
o sussuro
dos navios
enche o escuro;
ardem corpos,
ardem blocos,
cresce o rio;
sobre os puros
e os impuros,
tomba o frio
prematuro
do futuro;
grasna o corvo
que assistiu
a um outro
terramoto.
Terramoto,
te esconjuro!
Só um coro
dentre o sismo
se ergue ao Todo
poderoso.
Só um coro,
dentre o cismo;
só um coro;
são os cisnes,
são os cisnes ...
Hino? Prece?
Nem o ‘strondo
destes troncos
o emudece.
Grito vão,
sem remorso
nem perdão,
sobre o dorso
deste mundo
inseguro ...
Terramoto!
Terramoto,
te esconjuro!
3 –
Impropérios e morte exclama o vento,
o vindo das entranhas que arrebata
dos prédios a raíz fasciculada
e distribui aos ventos o cimento
em pólen transformado. Oh! Que sangrento
o vinho que se espalha e sobrenada
à flor da confusão alucinada
destes corpos em cacho! – Turbulento,
avança pelas ruas já o rio ...
Sobre um resto de fé – magro pedículo!
- o medo é um cogumelo fugidio ...
Mas é tarde de mais! Gritam os ventos,
ante o súbito, sórdido, ridículo
coro dos excelentes sentimentos!
Por entre as trevas, sobre os escombros,
vamo-nos vendo, e encontrando
a própria voz. Que reencontros!
Que mãos silentes sobre os ombros!
Desse milhão e tal que fomos,
Quantos restamos? E até quando
a própria voz, sobre os escombros,
noutros iremos encontrando?
Ah! Foi precisa esta agonia
para afinal apercebermos
que tudo quanto dividia
as nossas vozes poderia
harmonizar-se em litania
aos moribundos e aos enfermos ...:
- que só na última agonia
irmãos e unânimes seremos!
David Mourão Ferreira
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024
E por vezes
E por vezes”
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
David Mourão-Ferreira
Natais David Mourao Ferreira
Ladainha dos póstumos Natais
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito