sábado, 13 de fevereiro de 2010

David Mourão Ferreira - Grinalda para para o próximo terramoto de Lisboa - 1955 – Metáfora para os dias de hoje.

Ao Urbano Tavares Rodrigues

1 -

Vai deslizando a cidade

(cai a tarde)

entre duas noites gémeas,

tão eternas! Tão efémeras!

- como um corpo fatigado

(cai a tarde),

um corpo por entre dois

negros lençóis ...

Noite do céu, aconchega

bem o rosto da cidade!

Noite do céu, que tristeza

nos invade?

Noite do céu, nem na dobra

de luar do teu lençol

(ah! Que saudades do Sol!)

tamanha angústia soçobra. 

Mas, insones, esquecemos

a noite que espezinhamos,

remadores olhando os ramos

das altas árvores da margem,

só atentos à paisagem,

sem ver o lodo nos remos

nem os pegos

- olhos negros

das águas que espedaçamos! 

No desprezo a que o votamos,

range o lençol esquecido.

Ai de nós, que mal cuidamos

do perigo!

Noite funda das entranhas

intranquilas!

Noite funda das entranhas,

que venenos tu destilas!

E na tetas das colinas,

para nós, que leite ordenhas? 

Eis que num primeiro andar,

quase a boiar sobre o Tejo,

a um papagaio empalhado

e a um milhafre pintado

num azulejo

lhes tremem, súbito as asas;

e antes que tremam as casas

buscam, aflitos, o ar. 

Vem, ó Anjo tutelar

da luminosa, leviana,

mística, fútil, profana

cidade dos terramotos,

- vem, ó Anjo Jugular,

o terror dos próprios mortos! 

2 - 

Salta o esgoto,

cai o muro,

morre o porco

no monturo;

e no porto

o sussuro

dos navios

enche o escuro;

ardem corpos,

ardem blocos,

cresce o rio;

sobre os puros

e os impuros,

tomba o frio

prematuro

do futuro;

grasna o corvo

que assistiu

a um outro

terramoto.

Terramoto,

te esconjuro! 

Só um coro

dentre o sismo

se ergue ao Todo

poderoso.

Só um coro,

dentre o cismo;

só um coro;

são os cisnes,

são os cisnes ...

Hino? Prece?

Nem o ‘strondo

destes troncos

o emudece.

Grito vão,

sem remorso

nem perdão,

sobre o dorso

deste mundo

inseguro ...

Terramoto!

Terramoto,

te esconjuro! 

3 – 

Impropérios e morte exclama o vento,

o vindo das entranhas que arrebata

dos prédios a raíz fasciculada

e distribui aos ventos o cimento

em pólen transformado. Oh! Que sangrento

o vinho que se espalha e sobrenada

à flor da confusão alucinada

destes corpos em cacho! – Turbulento, 

avança pelas ruas já o rio ...

Sobre um resto de fé – magro pedículo!

- o medo é um cogumelo fugidio ... 

Mas é tarde de mais! Gritam os ventos,

ante o súbito, sórdido, ridículo

coro dos excelentes sentimentos! 

Por entre as trevas, sobre os escombros,

vamo-nos vendo, e encontrando

a própria voz. Que reencontros!

Que mãos silentes sobre os ombros!

Desse milhão e tal que fomos,

Quantos restamos? E até quando

a própria voz, sobre os escombros,

noutros iremos encontrando? 

Ah! Foi precisa esta agonia

para afinal apercebermos

que tudo quanto dividia

as nossas vozes poderia

harmonizar-se em litania

aos moribundos e aos enfermos ...:

- que só na última agonia

irmãos e unânimes seremos! 

Em sintonia com o Besugo, e com o autor do poema acima, sinto  saudades do Sol, mas daquele  “ que alumia e acalenta”, como conta o Besugo e não daquele  que está transformado em “noite funda das entranhas” e que “destila venenos” enquanto “ordenha leite, para nós”  bebermos, incautos, parafraseando David Mourão Ferreira.

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